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A aceleração do tempo

Que o universo está em expansão, já o sabemos desde as observações de Hubble sobre o afastamento progressivo de todos objetos cósmicos. Este físico mostrou que o universo não era estático e que a sua expansão decorria a uma velocidade constante. Esta foi uma grande descoberta na medida em que se julgava que devido à gravidade (força mais poderosa do universo, capaz de dobrar a própria energia) o universo poderia estar a contrair. Isto porque progressivamente a gravidade gerada pela matéria que foi sendo produzida no cosmos anularia a energia da expansão. Contudo, observações recentes de supernovas (investigadores foram premiados com o Nobel) demonstram que a velocidade de expansão está a acelerar, de modo aparentemente paradoxal, uma vez que, por um lado, desde o Big Bang tem havido dispersão de energia e por outro, a atração gravitacional estaria a travar essa expansão. Ora, se as hipóteses mais plausíveis para o fim do universo, seriam ou o Big Freeze (congelamento - devido ...

Três anos*

Há três anos entraste na minha vida. Impuseste-te em casa e fora dela, desde há três anos. Há três anos olhaste para mim pela primeira vez. Vivo suspenso nesse teu olhar, há já três anos. Há três anos chegaste com um choro vigoroso, que marcava bem uma forma de viver. Exiges uma dimensão só tua e sequestraste-me para ti, há três anos. Há três anos que és senhora das minhas mãos, dona dos meus sonhos. Uma semi-deusa pagã; uma querubim do Céu católico, desde há três anos. Há três anos que me pedes colo, que não te nego – nunca! Os meus braços são para ti e apenas servem para te abraçar, há já três anos. Há três anos que me matas a sede. Bebo-te às golfadas, com a alma sequiosa de ti, há três anos. Há três anos nasceste. Fizeste-me renascer, para em ti viver novamente, há três anos! Parabéns, filha, pelos teus 3 anos. * Escrito no dia 12 de outubro de 2013.

Poemacto

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Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. É sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva, com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas. E às vezes estou na frente dos campos como se morresse; outras, como se agora somente eu pudesse acordar. Por vezes tudo se ilumina. Por vezes sangra e canta. Eu digo que ninguém se perdoa no tempo. Que a loucura tem espinhos como uma garganta. Eu digo: roda ao longe o outono, e o que é o outono? As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento. Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra. Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas. - Era uma casa – como direi? – absoluta. Eu jogo, eu juro. Era uma casinfância. Sei como era uma casa louca. Eu me...

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É estranho como conhecemos os contornos de um corpo que nunca se tocou. A textura suave que se insinua. Um corpo que se move na minha mão como se dela sempre tivesse feito parte. Um sexto dedo. Afinal, a vantagem dos dedos é que sentem sem que se tenha de pensar neles. Sem que se tenham de pensar! Vieste ter comigo, levaste-me a passear e exigiste o que te prometera. Não foram necessárias palavras. Sabia ao que vinhas. Um toque leve de mão; uns lábios que se roçam; uma boca quente, doce e húmida que nos dá de beber e sacia; um abraço violento; um primeiro abraço lento… Mas o amadurecer do dia tem a vantagem de desvanecer os sonhos. Com a sua aproximação ao zénite, o Sol arrasta para longe as emoções despertadas pelas memórias do sono.

Primeiro dia de colégio.

No teu primeiro dia de colégio, a diferença mais significativa entre tu e o grupo onde foste inserida foi o de pedires autorização antes de mexer no que quer que fosse. E essa foi a única queixa que recebemos!

Pode um gene humano ser propriedade privada?

Há muitos anos que me tenho manifestado contra a objetivação do corpo que legitima a sua transação, assuma ela a forma de prostituição ou venda de órgãos. Os dias que correm provam que as minhas preocupações tinham razão de ser: soube há pouco que uma empresa ligada a biotecnologia pretende patentear um gene humano. A ser autorizado, a empresa tem o exclusivo de usar esse gene e cobrar por qualquer químico que sobre ele aja. Ainda que sejam produtos de combate a determinadas doenças, como o cancro. A ser autorizado, o próprio diagnóstico e estudo do gene estaria dependente da autorização da detentora da patente. Ou seja, a pessoa humana estaria dependente da autorização dessa empresa para fazer um determinado tratamento, caso fosse possuidor desse gene. Isto é grave e traz-me à memória o comércio do corpo humano, não apenas na forma da escravatura, mas as próprias fábricas da morte nazis. Ora, quando relativizamos valores, corremos estes riscos. Desconhecemos sempre o que nos reserv...

Política e participação

Tenho dado por mim a pensar sobre as razões da indiferença e da falta de participação dos cidadãos na política. E vou descobrindo que tal se deve a múltiplos motivos. Mas aquele que me parece maior e que mais me preocupa prende-se com a perceção de que as decisões, tomadas pelo poder político - que em Portugal tem o exclusivo da intervenção política - são sugeridas por lóbis e por interesses obscuros. Esta perceção leva a que as pessoas questionem sobre a importância e validade do seu voto no processo de tomada de decisão, uma vez que o sistema político português assenta numa partidocracia efetiva, ainda que não assumida. Para que esta lógica se inverta, vejo apenas uma solução: chamar as pessoas para os processos de decisão, fomentado a participação, organizada ou não, dos cidadãos. Não vejo solução que não passe pelo aumento do peso da democracia participativa.