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Voto inSeguro, mas voto!

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  Há momentos na vida democrática em que o voto deixa de ser um gesto de entusiasmo, de esperança ou de confiança no futuro. São momentos em que pouco mais nos resta do que praticar um ato de contenção (ou até de contrição!). O horizonte dos próximos cinco anos é marcado por uma frustração inevitável, contra a qual nada há a fazer. Nestas eleições presidenciais, nunca nos foi oferecida uma verdadeira oportunidade para celebrar uma visão de futuro. Não nos foi apresentada nenhuma alternativa capaz de suscitar esperança. Não nos foi dado escolher o melhor dos mundos. A decisão que temos diante de nós é simples e trágica: determinar qual destes dois maus mundos ainda é habitável. Álvaro Cunhal, em circunstâncias bem diferentes, e perante a escolha de dois candidatos cuja dimensão política atira para um canto a totalidade das escolhas que nos foram apresentadas, formulou com brutal clareza o que temos de fazer: “(…)   engolir um sapo. Se for preciso, tapem a cara com uma mão e...

Não vou em (a)Ventura(s)

Nos anos 90, percorria eu os corredores da Faculdade de Letras na Universidade de Coimbra, enquanto estudante de Filosofia, li um artigo de opinião de João Carlos Espada subordinado ao tema: o paradoxo da Democracia. A ideia do autor era simples: a democracia liberal é o único regime político que aceita no seu próprio seio ideologias que podem atentar contra a sua sobrevivência. Ao contrário dos regimes autoritários, que se protegem pela exclusão, a democracia vive da abertura, do pluralismo e da liberdade de expressão, mesmo quando estas são usadas para contestar os seus próprios fundamentos. Mais, a democracia liberal permite que até não-democratas possam ser candidatos em qualquer processo eleitoral, colocando em risco a sua continuidade. O politólogo português desenvolveu este conceito a partir da ideia de Karl Popper, ao lembrar que a tolerância ilimitada conduz à destruição da própria tolerância. É à luz deste paradoxo, e não de qualquer desconfiança em relação ao voto, que eu av...

Memória, verdade e futuro! 12/12/2025 07:40

  Memória, verdade e futuro! 12/12/2025 07:40 No dia 18 de dezembro assinala-se o Dia Internacional dos Migrantes. Para marcar a efeméride, a Direção Regional das Comunidades e Cooperação Externa promoveu uma campanha que dá a conhecer a diversidade cultural e o ambiente intercultural que se vive na Madeira e que nos afirma como uma Região aberta, plural e cosmopolita. Uma realidade visível hodiernamente: da restauração à agricultura, das pescas aos serviços, dos trabalhadores menos qualificados aos altamente especializados, passando por estudantes, investidores, artistas, investigadores, professores e desportistas. É esta diversidade que enriquece a nossa sociedade e contribui para o seu desenvolvimento. Esta data lembra-nos também uma verdade frequentemente ignorada nos debates públicos: a história da humanidade é, desde sempre, uma história de migrações. Povos, culturas e economias nasceram do movimento, não do isolamento ou da estagnação. A mobilidade foi decisiva para o desenv...

Amanecerá y veremos - JM 09_01_26

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  Amanecerá y veremos Em muitas casas madeirenses, de Maturín à Calheta ou de Maracaibo ao Funchal, o início de 2026 trouxe o mesmo ritual silencioso: ligar a televisão, confirmar notícias, trocar mensagens curtas e esperar. Esperar por sinais de estabilidade, por palavras de tranquilidade, por um amanhã que traga maiores certezas. Desde o dia 3 de janeiro, milhares de famílias mantêm-se expectantes relativamente ao futuro, com apreensão, mas também com esperança e confiança. A Região Autónoma da Madeira acompanha com especial atenção o desenrolar dos acontecimentos na Venezuela, dada a profunda ligação histórica, social e afetiva que une estas duas sociedades. Não falamos apenas de laços simbólicos, mas de pessoas concretas, de vidas construídas ao longo de décadas, de património, de negócios e de relações familiares e de amizade. Os acontecimentos têm evoluído de forma acelerada e são de análise complexa, ao contrário do que fazem crer dezenas de comentadores cujos conheciment...

A Diferença que Une JM 17_11_2025

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  Confesso que não queria voltar a este tema. Gostaria que o debate público em torno da imigração já tivesse superado o ruído das generalizações e dos preconceitos. Mas perante o ressurgimento de discursos populistas e xenófobos, alguns deles por parte de agentes políticos madeirenses, que procuram reduzir pessoas a números, e transformar quem chega em bode expiatório para os problemas sociais e económicos, o silêncio seria uma forma de cumplicidade ou cobardia. É por isso que importa voltar a falar. Para desmontar as falsas e estafadas narrativas que se vão instalando: a ideia de que os estrangeiros “vêm tirar o que é nosso”, “sobrecarregar o sistema” ou “descaracterizar a nossa identidade”. Nenhuma dessas afirmações resiste ao escrutínio dos factos. O que está em causa não é a presença dos imigrantes, mas a nossa capacidade – ou a falta dela! - de pensar e de construir políticas adequadas e justas e uma convivência baseada na equidade e no respeito. Os estrangeiros não são proble...

15 12_10_2025

  15 Hoje fazes 15 anos. Quinze voltas completas ao sol. E eu, quinze voltas a aprender o que é ser pai. Olho para ti e percebo que já não és menina, mas ainda o és. Que já és mulher, mas ainda não inteira. Estás nesse intervalo mágico em que tudo é possível: o riso que ainda é infantil, o olhar que já é de mulher, o sonho que cresce contigo. Há qualquer coisa de divino neste tempo. És flor e raiz, força e ternura, impulso e calma. És tudo o que um pai poderia sonhar e, ainda assim, és mais do que eu algum dia conseguiria imaginar. Neste último ano, reparei que já não te explico o mundo, converso contigo sobre ele. Já não te ensino a andar, caminho ao teu lado. Já não te protejo do mar, nado contigo. E é tão bonito ver-te ser. Recordo-me da bebé que cabia na palma da minha mão e da menina sempre feliz que enchia a vida de risos. Tenho saudades, claro. Mas gosto ainda mais desta fase, em que a tua presença é luz serena e furacão, conversa boa e discussão, cumplicidade inteira e uniã...

Imigração responsável, coesão garantida - JM - 17_10_2025

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Portugal é um país de partidas e de chegadas. A nossa história está marcada pelo encontro com o Outro e pelo esforço de integração: da nossa, nos outros países e dos estrangeiros, no nosso. O equilíbrio entre abertura e coesão é, não raras vezes, precário, razão pela qual torna-se fundamental que as políticas de imigração sejam rigorosas e objetivas. É por isso que a recente alteração à Lei dos Estrangeiros deve ser vista como um passo importante para uma política migratória mais responsável, mais justa e mais realista. Convém começar por distinguir dois conceitos que frequentemente aparecem associados: política de imigração e política de asilo. A primeira regula a entrada e permanência de cidadãos estrangeiros que procuram oportunidades económicas ou familiares e a segunda protege quem foge de perseguições, guerras ou catástrofes humanitárias. Misturar estas realidades é um erro e tem sido uma das causas de debate confuso e emocional em torno do tema. Aliás, os Juízes do Tribunal Cons...