Não vou em (a)Ventura(s)


Nos anos 90, percorria eu os corredores da Faculdade de Letras na Universidade de Coimbra, enquanto estudante de Filosofia, li um artigo de opinião de João Carlos Espada subordinado ao tema: o paradoxo da Democracia. A ideia do autor era simples: a democracia liberal é o único regime político que aceita no seu próprio seio ideologias que podem atentar contra a sua sobrevivência. Ao contrário dos regimes autoritários, que se protegem pela exclusão, a democracia vive da abertura, do pluralismo e da liberdade de expressão, mesmo quando estas são usadas para contestar os seus próprios fundamentos. Mais, a democracia liberal permite que até não-democratas possam ser candidatos em qualquer processo eleitoral, colocando em risco a sua continuidade.
O politólogo português desenvolveu este conceito a partir da ideia de Karl Popper, ao lembrar que a tolerância ilimitada conduz à destruição da própria tolerância. É à luz deste paradoxo, e não de qualquer desconfiança em relação ao voto, que eu avalio a candidatura de André Ventura às Presidenciais.
Escrevo como defensor assumido da democracia liberal e, politicamente inspirado pelo personalismo e pela tradição social-democrata. Não escrevo por antipatia pessoal nem por reflexo partidário. Escrevo por coerência intelectual. E, a partir deste lugar onde me situo, mas também por higiene ética e por convicção política, jamais poderia votar num candidato que defende o que André Ventura defende.
A democracia liberal não é apenas o procedimento que permite escolher governantes. É, como Popper insistia, um sistema concebido para limitar o poder e permitir a correção pacífica dos erros. Supõe respeito pelas instituições, linguagem política responsável e a aceitação de que nenhuma maioria pode tudo. Ora, o estilo político de André Ventura vive da erosão destas premissas. Os ataques recorrentes a tribunais, jornalistas e órgãos independentes, sempre que estes não confirmam a sua narrativa, não são sinais de saudável escrutínio democrático, mas tentativas de deslegitimação. A democracia raramente morre de um golpe; morre de desgaste, de suspeição permanente e da normalização do conflito institucional.
A partir do personalismo, a incompatibilidade torna-se ainda mais evidente. Mounier lembrava que “a pessoa não pode ser usada como meio, nem sacrificada a uma abstração”. Ora, acontece que grande parte do discurso político de André Ventura constrói-se precisamente através de abstrações morais: “os subsídio-dependentes”, “os criminosos”, “os ciganos”, “os imigrantes”. Não são pessoas concretas, com histórias singulares e responsabilidades próprias. São categorias homogéneas usadas para produzir indignação e mobilização emocional. A política transforma-se, assim, num exercício de humilhação simbólica. O personalismo recusa essa lógica porque parte da convicção de que a dignidade humana é incondicional e não depende de mérito, utilidade económica ou pertença identitária.
Dir-se-á que se trata apenas de “dizer verdades incómodas”. Mas dizer verdades não dispensa rigor, proporção nem humanidade. Um Estado democrático pode — e deve! — combater abusos no sistema social e punir o crime. O que não pode é transformar grupos inteiros em suspeitos coletivos.
Do ponto de vista da social-democracia, o problema assume uma forma diferente, mas não menos relevante. A crítica de André Ventura ao Estado social é estridente, mas raramente acompanhada por um projeto alternativo coerente. Oscila entre um liberalismo económico retórico (redução de impostos, ataque ao “Estado gordo”) e promessas sem explicitação clara dos seus custos ou impactos. A desigualdade estrutural, os baixos salários, a precariedade laboral, a escola pública universal e a universalidade do sistema de saúde, ausência de mobilidade social, o desprezo pelas Autonomias, surgem quase sempre em segundo plano, substituídos por uma obsessão com fraudes e “parasitas”. Para um social-democrata, e um social-democrata insular e autonomista, os abusos são um problema a corrigir, não são o núcleo da questão social. É preciso não confundir a árvore com a floresta.
Há ainda uma distinção essencial, formulada por Max Weber, entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. André Ventura é, sobretudo, um político da primeira: vive da indignação, da simplificação moral e do choque discursivo. Mas para ser presidente é necessário o contrário: ponderação, compromisso e prudência institucional.
Por tudo isto, é-me impossível votar em André Ventura. Porque acredito, com o personalismo, que a política começa e termina na dignidade da pessoa humana individualmente considerada. E porque acredito, com a social-democracia, que a justiça social é construída com reformas sérias e inclusivas, não com a exploração do ódio, do medo e da ignorância. A democracia tem o dever de ser exigente. Mas não pode abdicar da responsabilidade, da humanidade e do respeito por si própria. Com isto não quero afirmar que o voto em Ventura é menos legítimo do que o voto em Seguro. A beleza trágica da democracia é essa. O que quero dizer é que o eleitor que vota em Ventura tem de ter isso presente: estará a votar em alguém que coloca em causa as próprias fundações da democracia liberal e do Estado Social. E é esta tragédia que eu recuso. Com o meu voto, jamais!

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