Voto inSeguro, mas voto!
Há momentos na vida democrática em que o voto deixa de ser um
gesto de entusiasmo, de esperança ou de confiança no futuro. São momentos em
que pouco mais nos resta do que praticar um ato de contenção (ou até de
contrição!). O horizonte dos próximos cinco anos é marcado por uma frustração
inevitável, contra a qual nada há a fazer. Nestas eleições presidenciais, nunca
nos foi oferecida uma verdadeira oportunidade para celebrar uma visão de
futuro. Não nos foi apresentada nenhuma alternativa capaz de suscitar esperança.
Não nos foi dado escolher o melhor dos mundos. A decisão que temos diante de
nós é simples e trágica: determinar qual destes dois maus mundos ainda é
habitável.
Álvaro Cunhal, em circunstâncias bem diferentes, e perante a
escolha de dois candidatos cuja dimensão política atira para um canto a
totalidade das escolhas que nos foram apresentadas, formulou com brutal clareza
o que temos de fazer: “(…) engolir um
sapo. Se for preciso, tapem a cara com uma mão e votem com a outra.” A
frase não foi elegante, mas foi politicamente honesta e certeira. Deu nome
aquilo que muitas vezes a retórica democrática tenta esconder: que há votos que
não são de adesão, convicção ou esperança, mas apenas de humilde e desesperada necessidade.
É a partir deste deserto de opções que decido o meu voto por António José
Seguro.
Não escrevo com entusiasmo, afinidade ideológica ou ilusão
reformista. Escrevo com reservas. Reservas sérias. Ao longo dos últimos
cinquenta anos, o socialismo português foi, demasiadas vezes, mais parte do
problema do que da solução: excessivamente centralista, pouco sensível às
autonomias, preso a uma cultura política de tutela estatal, avesso às reformas,
à inovação e à responsabilização. O Estado hipertrofiado, a economia estagnada,
a confusão entre justiça social e imobilismo estrutural não surgiram por acaso.
Têm história. E essa história é socialista e também pesa nos ombros de António
José Seguro. Tal como pesa a permanente hostilidade que, por exemplo, os
governos de António Costa, dedicaram à Madeira e aos Madeirenses. Não
esquecemos. Não perdoamos. E nada disto desaparece pelo simples facto de o
candidato ser um socialista moderado, dialogante e institucional. Também não
desaparece a legítima desconfiança de quem, vindo de uma tradição
social-democrata ou autonomista, sabe que o Partido Socialista raramente fez
das autonomias um desígnio político consistente, tratando-as mais como
concessão administrativa do que como expressão de pluralismo político e
territorial.
E, no entanto…
A eleição presidencial não é um programa de governo. É escolha
de um árbitro, não de um jogador. É uma decisão sobre temperamento, linguagem,
relação com as instituições e com a Constituição. Vamos escolher o Chefe de
Estado, o líder das Forças Armadas, o mais alto magistrado da nação. É aqui que
as reservas ideológicas cedem lugar a uma avaliação mais fria. António José
Seguro representa, acima de tudo, previsibilidade democrática. Respeito pelo
pluralismo. Uma compreensão elementar, mas essencial, das funções e dos limites
do cargo. Compreende e respeita. Não governa por choque, não vive da indignação
permanente, não constrói capital político a partir da humilhação simbólica de
grupos sociais nem da erosão sistemática da confiança institucional. Não entusiasma,
mas não envergonha. Não se comporta como um arruaceiro, não espalha intrigas,
não destila ódio, não segrega, não divide, não polariza a sociedade! No tempo da
radicalização discursiva, isto não é pouco. É, aliás, o mínimo indispensável.
Não considero Ventura um fascista. Vejo-o antes como um
demagogo populista, sem nada de substancial a oferecer ao país para além de um
discurso vazio e repetitivo. Acredito, aliás, que se trata de um fenómeno
passageiro, destinado a perder fôlego em breve. O verdadeiro problema está na
normalização de um discurso extremista, que acabou por empoderar grupos
genuinamente fascistas, hoje já sem pudor em assumir-se como tal, e na promoção
de uma cultura de violência, segregação e polarização numa sociedade portuguesa
que se manteve coesa durante quase cinquenta anos. Isso, não perdoo!
E não espero de Seguro uma reinvenção do país. Não espero um
sobressalto reformista nem uma visão ousada para o desenvolvimento económico ou
para a autonomia política. Espero apenas que não agrave os nossos problemas
estruturais e que não contribua para a degradação do regime. Espero que seja
apenas aquilo que é: um democrata! Isso conta, num contexto em que a democracia
liberal parece desgastada.
Votar em António José Seguro é, para mim, um voto sem ilusões
e sem aplausos. Um voto defensivo. Um voto de contenção de danos. Um voto que
não apaga críticas passadas nem suspende exigências futuras. É um voto que se
faz tapando parcialmente o rosto, mas mantendo a mão firme no boletim. Não
porque seja o melhor. Mas porque, nas circunstâncias concretas, é o
suficientemente responsável para não ser perigoso.
E, em democracia, há momentos em que isso basta.
https://www.jm-madeira.pt/opiniao_cronicas/voto-inseguro-mas-voto-FE19593996
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