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Memórias de um homem velho

Haviam-lhe dito que vivia assombrado. Que os corpos caídos são memórias guardadas, sem que sequer perceba os fios que foi tecendo ao longo da vida. Tinham-lhe dito que o importante, neste percurso que inexoravelmente o conduz à imortalidade, é quantidade de cadáveres que consegue preservar: porque os outros regressam e não o abandonam! Acompanham-no com a única finalidade de lhe acizentar o olhar. Querem entristecer as mãos que não os souberam ou quiseram proteger. São constantes, sombras permanentes que lhe enrugam a alma. Recomendavam-lhe cautela, para não se deixar intimidar pelos mortos sem que, contudo, deixasse de estar atento aos espíritos que o seguiam. Porque nem todos lhe desejariam bem. Contudo, foi naquela manhã que percebeu que afinal era ele que assombrava os seus mortos. Que os perseguia porque assim se penitenciava. A assombração era a água que o purificava de todas as palavras malditas do passado. As almas exigem que os liberte, mas ele não o pode fazer. As pa...

A cidade e o espaço urbano são coincidentes?

A cidade e o espaço urbano são coincidentes? Segundo Henri Lefebvre, no seu «O direito à cidade», não. Por cidade, entende o espaço físico e por urbano entende o intangível, a potência. Podem convergir, criando o "espaço público", mas não são coincidentes. Bauman descrevia-os como o mundo sólido vs mundo líquido, coexistindo no espaço público. Sinceramente, cada vez mais me convenço que cidade e espaço urbano não apenas não são coincidentes como estão, progressivamente a afastar-se. Cada vez mais os cidadãos têm menos direito à cidade, menos capacidade de intervenção sobre ela, havendo, de forma aparentemente paradoxal, naturais e desejáveis movimentos de (re)apropriação do espaço urbano, por parte daqueles que habitam a cidade. Explicito: hoje, o destino das cidades é mais decidido nos centros nefrálgicos do poder económico, por parte de atores que não habitam a cidade e menos por aqueles que as cruzam diariamente. Quando o CEO de uma grande empresa toma, a partir de,...

A aceleração do tempo

Que o universo está em expansão, já o sabemos desde as observações de Hubble sobre o afastamento progressivo de todos objetos cósmicos. Este físico mostrou que o universo não era estático e que a sua expansão decorria a uma velocidade constante. Esta foi uma grande descoberta na medida em que se julgava que devido à gravidade (força mais poderosa do universo, capaz de dobrar a própria energia) o universo poderia estar a contrair. Isto porque progressivamente a gravidade gerada pela matéria que foi sendo produzida no cosmos anularia a energia da expansão. Contudo, observações recentes de supernovas (investigadores foram premiados com o Nobel) demonstram que a velocidade de expansão está a acelerar, de modo aparentemente paradoxal, uma vez que, por um lado, desde o Big Bang tem havido dispersão de energia e por outro, a atração gravitacional estaria a travar essa expansão. Ora, se as hipóteses mais plausíveis para o fim do universo, seriam ou o Big Freeze (congelamento - devido ...

Três anos*

Há três anos entraste na minha vida. Impuseste-te em casa e fora dela, desde há três anos. Há três anos olhaste para mim pela primeira vez. Vivo suspenso nesse teu olhar, há já três anos. Há três anos chegaste com um choro vigoroso, que marcava bem uma forma de viver. Exiges uma dimensão só tua e sequestraste-me para ti, há três anos. Há três anos que és senhora das minhas mãos, dona dos meus sonhos. Uma semi-deusa pagã; uma querubim do Céu católico, desde há três anos. Há três anos que me pedes colo, que não te nego – nunca! Os meus braços são para ti e apenas servem para te abraçar, há já três anos. Há três anos que me matas a sede. Bebo-te às golfadas, com a alma sequiosa de ti, há três anos. Há três anos nasceste. Fizeste-me renascer, para em ti viver novamente, há três anos! Parabéns, filha, pelos teus 3 anos. * Escrito no dia 12 de outubro de 2013.

Poemacto

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Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. É sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva, com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas. E às vezes estou na frente dos campos como se morresse; outras, como se agora somente eu pudesse acordar. Por vezes tudo se ilumina. Por vezes sangra e canta. Eu digo que ninguém se perdoa no tempo. Que a loucura tem espinhos como uma garganta. Eu digo: roda ao longe o outono, e o que é o outono? As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento. Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra. Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas. - Era uma casa – como direi? – absoluta. Eu jogo, eu juro. Era uma casinfância. Sei como era uma casa louca. Eu me...

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É estranho como conhecemos os contornos de um corpo que nunca se tocou. A textura suave que se insinua. Um corpo que se move na minha mão como se dela sempre tivesse feito parte. Um sexto dedo. Afinal, a vantagem dos dedos é que sentem sem que se tenha de pensar neles. Sem que se tenham de pensar! Vieste ter comigo, levaste-me a passear e exigiste o que te prometera. Não foram necessárias palavras. Sabia ao que vinhas. Um toque leve de mão; uns lábios que se roçam; uma boca quente, doce e húmida que nos dá de beber e sacia; um abraço violento; um primeiro abraço lento… Mas o amadurecer do dia tem a vantagem de desvanecer os sonhos. Com a sua aproximação ao zénite, o Sol arrasta para longe as emoções despertadas pelas memórias do sono.

Primeiro dia de colégio.

No teu primeiro dia de colégio, a diferença mais significativa entre tu e o grupo onde foste inserida foi o de pedires autorização antes de mexer no que quer que fosse. E essa foi a única queixa que recebemos!