Mensagens

Desgraça, Mandela e a história não contada da África do Sul

Há já alguns meses li a Desgraça, de J. M. Coetzee. E, então, fiquei com a sensação de que há uma história, pós-apartheid, de violência, racismo, punição e expiação que ainda falta contar. Talvez um pouco a despropósito da fase crítica porque passa Nelson Mandela, porque o líder africano não é responsável pelos vícios históricos que ocorrem no país, e, nomeadamente, por ver expressas opiniões, mais ou menos apaixonadas, sobre a África do Sul e sobre a bondade do legado de Madiba, voltei a recordar do livro e da impressão com que fiquei. Poder-se-ia dizer que Desgraça conta a história do declínio de um homem branco, um professor universitário, um intelectual, na África do Sul. E seria verdade. Mas a história que mais me interessou, foi a da violência racista de que são alvos os brancos naquele país. A violação da filha do professor Lurie não é um ato de violência de género. O ódio que ela vê nos rostos dos homens revela que eles “apenas” estão a cobrar aquilo que acham que têm direito...

Dia do pai (2013)

Não sou adepto do desconstrutivismo, mas há muito que venho refletindo sobre o verso de Rimbaud "je est un autre". Sei bem que se aproveitou deste verso para mostrar a atitude ética da precedência da alteridade. Percebo-o, muito bem, quando entro no olhar da minha filha. Mas acho que as palavras do poeta francês tinham, também, talvez, um outro significado. Ali está inscrito o facto de sermos múltiplos outros. Somos filhos, somos irmãos, somos amigos, somos amantes, somos trabalhadores, somos camaradas, somos pessoas, somos bons, somos maus. E eu, também sou isto tudo. Não obstante, não tenho a mínima dúvida que na assunção de ser, o que sou, mais do que tudo, é pai. Pelo menos é isso, de tudo o que sou, aquilo que mais gosto de ser.

Ditos de Beatriz em dia de Carnaval

-Pai, eu gosto muito de ti. e vais te pôr quieto! Filha, queres ajuda? - Não, obigada. Eu ajudo-me!

Governo antidemocrático

Será este governo democrático? Um governo democrático é um governo dialógico que reconhece a importância da sua legitimidade de governar, como também reconhece que outros são igualmente representantes do povo e que por isso devem ser ouvidos e as políticas com eles devem ser debatidas, não de uma forma dogmática, mas com abertura para que da diversidade emerja uma política equilibrada que sirva a todos. Essa é a raiz da democracia. E o PSD, o CDS e o PS são tradicionalmente classificados como partidos do centro, partidos não radicais, logo mais dignos de confiança eleitoral, porque defendiam esta perspetiva, ante a clássica radicalidade ideológica do PCP. Ora, hoje, não é isso que se passa. O PSD e o CDS já não são partidos de centro. São partidos radicais de uma direita liberal. Não são dialógicos, porque não negoceiam: não negoceiam com os nossos credores, não negoceiam com restantes partidos, não negoceiam com atores da concertação social, não negoceiam com poder local, não negoceia...

Ditos de Beatriz II (atualizado)

- O pai pisgou-se. Atrás dele... (Quando eu e a tua mãe falávamos mais alto): - Icho não. Pára com icho. Calma... (Mente inquisidora, a apontar para coisas e pessoas): - O quéisto? - Quem éisto? O tua mãe diz-te: - És fresca, és.... Respondes. - Eu, nem pensar... Uma macaca com 27 meses)

Pink Floyd

Imagem
Amo Pink Floyd. Quando, em criança, ouvi pela primeira vez, fiquei apaixonado para a vida. E como qualquer purista amante de Pink Floyd, nunca perdoei David Gilmour por ter forçado a saída de Roger Waters da banda. Porque Pink Floyd sem Roger Waters não é bem Pink Floyd. E os álbuns sem o histórico vocalista (perdoa-me Syd Barret) perderam algum valor. E sempre achei que se era para sair alguém, mais valia ter saído Gilmour. Contudo, hoje, tenho a profunda convicção que a banda perderia tanto, ou até mais se, ao invés de Waters (perdoa-me agora, tu, Roger), tivesse saído o David. Porque a fender é vital aos Pink Floyd. E ninguém a toca, no espírito da banda, como David Gilmour. Espero conseguir ensinar-te a gostar tanto de Pink Floyd como eu, minha querida.

Dos olhos iníquos ou quando as sensações e sentimentos provam ou desmentem a epistemologia moderna.

Fala o homem lento. Não sei como poderia achar-me apaixonado por uma alma tão pueril, tão imprudente? És demasiado nova para o amor calmo e terno da velhice. Para o amor sublime. Como poderás ser amante, se não sabes ser amiga? Como poderias ser curandeira, se nem serves para acalmar o estado febril? E a solidariedade é uma flor que se cultiva. Não é a parasita do jardim. És selvagem, mas não és orquídea. E não, não é o olhar feminino que determina a evolução, porque a origem da beleza reside na opção pela bondade… E essa não encontra a resposta no darwinismo. O sabor a morango que se desprende dos teus lábios apenas comprova a iniquidade do que vive agarrado aos teus olhos. Porque hoje sei que não tens olhar. O olhar exige a compreensão da distância e não apenas o que vive na iris. E os fantasmas estão sempre tão próximos, porque são sombras no glóbulo ocular. São a miséria que tens para oferecer. Por isso, recuso a inundação da saliva que me prometes, a humidade tépida com que ...