Entre o populismo e a verdade JM 21_08_26
Entre o populismo e a verdade
Há quem, na política, evite o confronto e se refugie no silêncio cobarde, a ver se passa entre os pingos da chuva. Para mal dos meus pecados, não sou um deles. Por deformação académica e, sobretudo, por convicção ideológica, acredito que as divergências políticas devem ser discutidas olhos nos olhos, com argumentos e factos. É por isso que não consigo ficar indiferente quando vejo a mentira, a suspeita e a estigmatização transformadas em instrumentos políticos.
Sei que este texto vai valer mais um ou outro vídeo inflamado do deputado do Chega eleito pela Madeira. Aquele que se apresenta como paladino da verdade, mas sobre o qual se vão conhecendo ligações políticas, alegadas falsidades no CV, nomeações polémicas, questões relacionadas com a utilização de recursos públicos e suspeitas de difamação, entre outras polémicas. E sei que também me irá valer mais umas quantas ofensas gratuitas feitas por anónimos cobardes nessas páginas de maledicência que abundam no nosso espaço virtual. Paciência. Quem escolhe o confronto político não pode depois exigir imunidade ao escrutínio, mesmo quando este é feito de forma torpe.
Vem isto a propósito do comunicado do Chega, que alega a existência de fogos habitacionais propriedade da IHM ocupados por imigrantes, tendo insinuado que poderão estar em causa “situações de apoderamento da coisa pública”, “subarrendamento ilegal” ou disponibilização de fogos públicos. A pergunta que se impõe é simples: posta de lado a retórica xenófoba, a verdade tem alguma importância?
Uma coisa é denunciar uma infração identificada e comprovada. Outra é juntar, no mesmo discurso, habitação, imigração, subarrendamento, insegurança e degradação urbana, criando uma associação que pode produzir uma forte impressão pública sem que estejam demonstrados os nexos entre todas essas realidades.
Os imóveis em causa são propriedade privada. Como facilmente pude confirmar, bastou contactar o IHM para o descobrir. O que, aliás, poderia e deveria ter sido feito pelo Chega, que tem um grupo parlamentar e, por isso, legitimidade democrática e instrumentos próprios para exercer o escrutínio. São apartamentos de privados cujos proprietários entenderam arrendar a outras pessoas. Este é o facto. Ainda que não seja notícia.
Um deputado tem responsabilidades que um comentador anónimo não tem. Pode requerer informação, questionar as entidades competentes, pedir documentos e exigir respostas. Porque fiscalizar é procurar factos e procurar a verdade. Não é fabricar suspeitas. Não é mentir. Não é inventar. Não é especular. Isso é para o comentador de Facebook, para o hater digital. Não é para o agente político. Não é para o deputado. Não é para o dirigente partidário.
A nacionalidade de quem habita uma casa não constitui uma ilegalidade. No exercício das funções que desempenho na área da igualdade e das migrações e asilo, sei que não há respostas fáceis para problemas complexos. Há problemas de habitação? Há. Há desafios associados à imigração? Naturalmente. Mas nenhum destes factos autoriza a conclusão fácil de que “os imigrantes” são a causa de todos os problemas.
A Madeira não precisa de escolher entre segurança e tolerância, entre autoridade e dignidade, entre controlo e respeito pelas pessoas. Uma política adulta deve ser capaz de fazer todas essas coisas ao mesmo tempo. E é isso que o Governo Regional, liderado por Miguel Albuquerque, tem feito: dentro das suas competências, trabalha para uma política migratória que garanta vias legais e previsíveis de entrada, mas exige, simultaneamente, o cumprimento escrupuloso da lei e promove a integração através da língua, do emprego, do respeito pelas regras da sociedade de acolhimento e pelo seu sistema legal e democrático. Direitos e deveres não são conceitos incompatíveis: fazem parte da mesma ideia de cidadania e de integração. E um Estado humanista não é um Estado sem autoridade. É um Estado que estabelece regras, faz cumprir a lei e, ao mesmo tempo, não abdica da dignidade humana de quem está do outro lado.
É por isso que não me incomoda o confronto político. Incomoda-me, isso sim, quando o confronto substitui os factos; quando a suspeita substitui a prova; quando o insulto substitui o argumento; e quando as redes sociais passam a ditar a agenda, em vez de servirem para comunicar decisões políticas.
Precisamos de menos caça ao inimigo e mais fiscalização. Menos indignação fabricada e mais investigação. Menos vídeos para alimentar algoritmos e mais respostas para resolver problemas.
Porque o populismo oferece culpados.
A política séria oferece soluções. Pela nossa parte, é desse lado que estamos.

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