Não é memória, é futuro! JM 18-09-26


Sempre que viajo em trabalho obrigo-me a olhar para a nossa própria história e percebo que a Madeirensidade é também edificada a partir da história das migrações madeirenses.
E a minha deslocação a Jersey comprovou isso, uma vez mais. Revelou-se como uma oportunidade extraordinária para compreender melhor esta comunidade que há décadas atravessa o Atlântico, leva consigo a Madeira e, ao mesmo tempo, constrói uma vida própria num território que também passou a ser seu. Ali, naquela ilha, as nossas gentes construíram uma comunidade, mas contribuem ativamente para a edificação da nossa cultura e da nossa identidade, ainda que à distância.
A relação entre a Madeira e Jersey não começou agora. Foi construída por gerações de madeirenses que chegaram a esta ilha à procura de trabalho e de uma vida melhor. Muitos encontraram dificuldades, barreiras linguísticas, culturais e sociais e, em alguns casos, situações de exploração. As gerações mais antigas não tiveram as mesmas condições que hoje damos por adquiridas. Os direitos, a integração e o reconhecimento social foram conquistas que não apareceram por acaso. Foram construídos por quem chegou primeiro. É por isso que não podemos olhar para a nossa diáspora apenas como uma fotografia do passado.
A comunidade madeirense em Jersey está integrada, é reconhecida e dá um contributo incontornável à sociedade. Isso é motivo de orgulho, mas também uma responsabilidade, porque exige de nós a manutenção da ligação à Madeira, que não se limita à memória dos pais e dos avós. Manter esta comunidade protegida é também uma tarefa diária.
Foi sobre isso que conversámos nas reuniões com o Bailiff de Jersey, com a Connétable de Saint Helier, Inna Gardiner e com o Ministro Ian Gorst. Falámos menos do passado e mais do futuro. Falámos menos de segregação e mais de inclusão. Falámos menos de diferença e mais sobre aquilo que nos une e as pontes que somos capazes de construir. Falámos de saúde, de educação, de cultura, de mobilidade e de turismo. Falámos de intercâmbio entre escolas e alunos, da valorização da língua portuguesa e de residências artísticas. E falámos da necessidade de renovar o Acordo de Amizade entre a Madeira e Jersey, dando-lhe novas áreas de cooperação e, sobretudo, conteúdo concreto. É esta a diplomacia em que acredito: uma diplomacia que não se esgota em fotografias, apertos de mão ou discursos protocolares. Uma diplomacia que procura resultados concretos para as pessoas.
Durante a visita à Biblioteca de Jersey, tivemos também a oportunidade de entregar livros editados na Madeira, reforçando a presença da nossa literatura e da nossa produção cultural. Pode parecer um gesto pequeno. Não é. E isso foi reconhecido pelas autoridades de Jersey, a começar pelo próprio diretor da Biblioteca que, já agora, receberá a escritora Lídia Jorge ainda este ano na sua - agora reforçada -, secção de literatura portuguesa.
Um livro que chega a uma biblioteca, a uma escola ou às mãos de um jovem em Jersey, seja madeirense ou não, é uma pequena embaixada da nossa Região. É uma forma de dizer aos nossos emigrantes que a Madeira não se esqueceu deles, mas é também uma forma de afirmamos às autoridades que estamos presentes e atentos e que pretendemos continuar a aprofundar os laços que unem estas duas comunidades.
E retorno à ideia inicial: a diáspora não é uma extensão passiva da Madeira. É parte da Madeira contemporânea. Durante muito tempo, falámos dos emigrantes sobretudo como pessoas que partiram. Hoje devemos falar também de pessoas que construíram, aprenderam, empreenderam, criaram famílias, conquistaram direitos e ganharam reconhecimento nos territórios que as receberam. E a nossa responsabilidade não é apenas preservar a memória de quem partiu. É criar condições para que as novas gerações tenham razões para manter viva essa ligação.
Por isso, a proposta da criação de uma Little Madeira em Saint-Helier entusiasmou todos, pois é um reconhecimento bonito da história e do contributo da comunidade madeirense. Mas os símbolos só têm verdadeiro valor quando servem de ponto de partida. Não basta ter uma Little Madeira. É preciso ter mais Madeira na educação, na cultura, na cooperação, na mobilidade, no turismo e nas oportunidades.
Temos uma história que nos une. Houve sacrifício, dificuldades e exploração, mas houve também trabalho e capacidade de vencer. As novas gerações herdaram direitos que as anteriores tiveram de conquistar. Não devemos tomar essas conquistas como garantidas. Devemos transformá-las em novas oportunidades.
É esse o sentido que vejo para a relação entre a Madeira e Jersey: mais integração, mais cooperação e mais oportunidades.
Porque temos uma história que nos une. Agora, cabe-nos garantir que essa história não termina no passado.
E a melhor homenagem a quem partiu é construir um futuro que justifique tudo aquilo que conquistaram.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Início

A AUTONOMIA VENDIDA POR UM PRATO DE LENTILHAS Opinião | 29/11/2018 08:28

DE SUBSÍDIOS, DIREITOS E DA TURBA JUSTICEIRA QUE ENFERMA AS REDES SOCIAIS Opinião | 19/04/2018 08:49