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"Somos guardadores e exportadores de espanto"

Opinião | 25/01/2018 00:44 Não, caros leitores, o título não é meu. Gostaria que fosse, mas não é. Foi uma lindíssima expressão que José Tolentino Mendonça nos deixou quando cá esteve, naquele que foi para mim um dos grandes acontecimentos de 2017, a sua conferência no Fórum Madeira Global. Neste evento, a reunião magna anual das Comunidades Madeirenses, que tem como princípio fundamental garantir uma maior participação dos nossos conterrâneos espalhados pelo mundo e prestar assessoria ao Governo Regional no quadro da definição das políticas para o sector, o padre e poeta brindou todos os presentes com um elogio absolutamente único à sua terra-natal. Deixou-nos uma das mais belas laudes à Madeira que tive oportunidade de assistir ou de ler. Porque descreveu na perfeição aquilo que tantos de nós sentem na relação com esta terra que nos viu nascer. “A Madeira é um útero, um vácuo cósmico onde o tempo não corre, o colo de um vulcão maternal.” É, temos da Madeira a imagem antro...

Olifaque, ou uma sociedade que vive entre o medievalismo e a hipermodernidade

Opinião | 28/12/2017 08:08 Há dias, a propósito do lançamento do seu mais recente livro – Olifaque! –João Magueijo afirmava que o povo português mantinha algumas características tipicamente medievais. O físico e investigador justificava esta sua afirmação pelas inegáveis manifestações que persistem na sociedade portuguesa: índices excessivamente elevados de violência doméstica e de género; fraco reconhecimento da importância da educação/formação e níveis de iliteracia elevados; racismo e xenofobia; machismo; manifestações de agressividade e de brutidade mais ou menos recorrente. Magueijo sustenta esta posição não apenas pela observação que faz em Portugal, mas especialmente pelo que diz observar nas comunidades portuguesas, nomeadamente na do Reino Unido (onde reside) e na do Canadá (onde viveu durante dois anos). Passando algum exagero que reconheço ao autor, a verdade é que diariamente os meios de comunicação social nos mostram uma realidade que parece coincidir com aquel...

Raríssimas vezes assistimos a tanta indecência

Opinião | 15/12/2017 08:03 Dezembro é o mês da Festa, da celebração do amor, da alegria, da família. Mas este dezembro de 2017 foi também o mês em que fomos confrontados com algumas das piores indecências que proliferam na sociedade portuguesa. Descobrimos uma igreja - que se diz universal – que a partir de um lar que alojou várias crianças roubadas às mães, dinamizou uma rede internacional de adoções ilegais para os seus membros. Foi o mês em que assistimos ao vivo um jovem atirar um sem-abrigo para dentro de um caixote do lixo, na Amadora. Em que tomámos conhecimento da triste notícia de três jovens que agrediram, gratuitamente, um sem-abrigo, no Funchal. Foi o mês em que descobrimos a história macabra de uma dirigente que roubava a crianças doentes para financiar os seus luxos pessoais. De facto, a história da Raríssimas é, tragicamente, uma história demasiado comum em Portugal. Talvez sintomática do que se passa no país, do nosso miserável fado: a história de co...

Entre Rio e Santana: a escolha programática

Opinião | 10/12/2017 04:00 No dia 13 de janeiro, o PSD vai a votos e os militantes terão de escolher entre Pedro Santana Lopes e Rui Rio para líder do partido. Ambos são dirigentes históricos, experientes e com provas dadas. Possuem currículos relevantes ao nível profissional e político, tendo passado por funções executivas que, na generalidade e muito especialmente nas experiências autárquicas, deixaram a marca de bom trabalho e saudade nas populações que serviram. São ambos carismáticos, bons comunicadores, de verbo fácil e acutilante, com estilos assertivos de liderança, competentes para fazerem oposição e aparentemente preparados para a governação. Com esta introdução, percebeu já o caro leitor que, na minha opinião, não será pelo carácter do candidato que se decidirá estas eleições. Pelo menos na Madeira. E se não é pelo carácter, os eleitores madeirenses tão pouco serão influenciados pelo conhecimento dos dossiers importantes para a Madeira ou pelos compromiss...

Da absurda semelhança dos partidos do sistema

Opinião | 24/11/2017 Não sou um grande leitor de Saramago: li apenas 4 ou 5 livros do autor. Mas a mulher que me acompanha há 20 anos é. E, há dias, numa conversa sobre algumas das consequências advindas do resultado das eleições autárquicas, falou-me do “Ensaio sobre a Lucidez”, do nobel português. Genericamente, o livro versa sobre os efeitos que decorrem de uma massiva votação em branco. Se a esmagadora maioria dos eleitores votasse em branco, o que é que isso significaria? Seria uma manifestação de lucidez do povo, cujo nível de exigência o leva a rejeitar todas as propostas eleitorais que lhe são apresentadas? Ou, por outro lado, apenas revela o seu alheamento? Seja como for, nem é esta dimensão que me interessa abordar. O que me parece interessante é o aparente vazio de poder que daqui decorre. Se nenhuma força política tem legitimidade para governar, não estarão todas elas condenadas ao entendimento, de forma a viabilizar um governo composto por todos? Ora, ne...

Estudos de opinião em política: ferramentas de diagnóstico ou de criação de opinião? JM: 02/11/17

Li, aqui há um par de anos, umas declarações de um sociólogo que atribuía o falhanço das sondagens, nas eleições legislativas britânicas, ao receio das pessoas parecerem politicamente incorretas. A tese defendia que as pessoas estão demasiado condicionadas pelo pensamento mainstream e temem que as suas opiniões contribuam para as catalogar como intolerantes, antiquadas, radicais, desajustadas, injustas, ingénuas, pouco inteligentes e/ou desinformadas. De acordo com a teoria, os cidadãos promovem a autocensura, intuindo que há coisas que não podem ser ditas. Posto isto, quando inquiridas pelas empresas de sondagens, as pessoas, com receio da estigmatização, dizem aquilo que consideram ser o que de si esperam e não aquilo que realmente pensam ou sentem. Nesse artigo, chamava-se a atenção para a aparente “espiral do silêncio” (teoria de Elisabeth Noelle-Neumann), de acordo com a qual as pessoas deixam-se modificar pela perceção que têm sobre aquilo que maioria pensa. Com receio de algum i...

Voto dos emigrantes nas eleições regionais: um direito da “nona ilha” Opinião | 05/10/2017 JM

O direito ao voto para as eleições legislativas regionais é uma aspiração tão antiga quanto legítima e justa dos nossos emigrantes espalhados pelo mundo. Em agosto passado, teve lugar a primeira reunião do Conselho da Diáspora Madeirense – órgão consultivo do Governo Regional que integra 21 representantes, provenientes das principais e mais relevantes comunidades madeirenses espalhadas pelo mundo. Dessa reunião emanou um conjunto de conclusões importantes para a definição de políticas, quer por parte dos órgãos regionais, quer por parte da República Portuguesa. Dessas, a mais importante recomendação política terá sido a 6ª, em que foi considerado que “(…) fiel ao espírito dos princípios constitucionais que consagraram a Autonomia Político-Administrativa da Madeira, deve ser conferida aos Madeirenses que aprofundam a Região no Mundo, o direito ao voto nas eleições legislativas regionais”. Mais acrescentou que numa comunidade que é apresentada simbolicamente como a que a “nona ilha”, é ...