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ALMA DE ESCRAVO | 17/05/2018 08:30

Na política madeirense, há quem, de facto, revele alma de escravo e esteja disposto a aceitar tudo o que lhe é imposto a partir do centralismo de Lisboa. As razões para que isso suceda são várias: alguns porque essa é mesmo a sua condição; outros porque lhes impuseram essa conceção e essa imagem de si próprios; outros, ainda, porque lhes parece ser esse o caminho para atingir o seu projeto de poder; e por fim, uns quantos que assim conseguem disfarçar a extraordinária flexibilidade da sua coluna vertebral. Recuemos à Grécia Antiga. Como filósofo sistémico (e com pensamento sistemático, mesmo que anacrónico), Aristóteles refletiu sobre quase toda a realidade do seu tempo. Para a posteridade deixou inúmeros argumentos que, ao longo dos anos, foram sendo interpretados e reinterpretados à luz dos contextos filosóficos, políticos, geográficos, históricos, culturais, ideológicos e até éticos. Como realidade premente da sua época, e porque também há 2400 anos na Grécia havia...

DE SUBSÍDIOS, DIREITOS E DA TURBA JUSTICEIRA QUE ENFERMA AS REDES SOCIAIS Opinião | 19/04/2018 08:49

Sei que vou destoar da moralista e justiceira turba facebookiana e desiludir alguns dos que fazem o favor de ler estas linhas e irritar outros tantos. Mas um imperativo de consciência não me permite que este meu artigo seja sobre outro assunto. Vou escrever sobre a última polémica que incendiou as redes sociais: o alegado duplo subsídio que os deputados insulares estariam a beneficiar para as suas deslocações entre Lisboa e os seus círculos eleitorais. Conforme escrevia um amigo meu, a ética republicana é a Ética da República. Quer isso dizer que a ética republicana define um código de conduta socialmente reconhecido e aprovado, constituído por um conjunto de regras, normas e valores partilhados e consensuais entre os diferentes indivíduos que integram essa mesma República. Será, então, aquilo que poderemos designar por “moralidade” republicana, que nos compromete a todos e orienta o nosso comportamento. A ética republicana não pode ser confundida com a Ética, que nos...

ESTAR PARA LÁ DO OCEANO… Opinião | 23/03/2018 08:10

Recentemente, tive a oportunidade de participar no programa “20 Anos para lá do Oceano”, emitido pelo canal naminhaterra.tv e que tinha como objetivo celebrar a Diáspora Madeirense. Ali tivemos um vislumbre do que são hoje os emigrantes madeirenses, bem como a diversidade de locais onde “estamos”. Tivemos intervenções em direto a partir de Singapura, Austrália, Brasil, África do Sul, Estados Unidos e Reino Unido. Mas poderíamos ter tido de muitos mais locais: das Antilhas, das Guianas, da nossa querida Venezuela, de diversas ilhas do grande mar das Caraíbas, do Havai, da China, do Japão, enfim… Porque a verdade é que hoje estamos espalhados literalmente pelos 4 cantos do Mundo. Nalguns casos, uma emigração mais antiga, com comunidades organizadas e integradas; noutros, migrações e mobilidades proporcionadas pelas dinâmicas decorrentes da Globalização. Em muitos destes novos destinos ainda não temos comunidades propriamente ditas, mas temos já um número de emigrantes qualifica...

Projetos políticos ou clubes de fãs?

Opinião | 22/02/2018 08:47 Nasceu um novo projeto político que pretende ser poder na Região e que tem como única matriz identitária, ideológica, doutrinária ou programática, ser “Pelas Pessoas”. Aqui, neste grande cliché panfletário e propagandístico, ótimo chavão para publicidade, mas vazio de conteúdo, reside todo o programa da solução. Vamos ter uma educação para as pessoas, uma saúde para as pessoas, uma economia para as pessoas, uma autonomia para as pessoas, uma agricultura para as pessoas, um turismo para as pessoas, enfim… Como se todas as decisões políticas, de todos os outros partidos, pudessem ter outro destinatário que não as pessoas. É um chavão, sim, mas um chavão arrogantemente pateta e pretensioso. Com que recursos, acionando que meios, como, fazendo que opções, com vista a que objetivo, em quanto tempo, por quanto tempo, que projeto de sociedade preconiza, recorrendo a que orientação ideológica, nada disso importa. Mas, como se não bastasse este soundb...

"Somos guardadores e exportadores de espanto"

Opinião | 25/01/2018 00:44 Não, caros leitores, o título não é meu. Gostaria que fosse, mas não é. Foi uma lindíssima expressão que José Tolentino Mendonça nos deixou quando cá esteve, naquele que foi para mim um dos grandes acontecimentos de 2017, a sua conferência no Fórum Madeira Global. Neste evento, a reunião magna anual das Comunidades Madeirenses, que tem como princípio fundamental garantir uma maior participação dos nossos conterrâneos espalhados pelo mundo e prestar assessoria ao Governo Regional no quadro da definição das políticas para o sector, o padre e poeta brindou todos os presentes com um elogio absolutamente único à sua terra-natal. Deixou-nos uma das mais belas laudes à Madeira que tive oportunidade de assistir ou de ler. Porque descreveu na perfeição aquilo que tantos de nós sentem na relação com esta terra que nos viu nascer. “A Madeira é um útero, um vácuo cósmico onde o tempo não corre, o colo de um vulcão maternal.” É, temos da Madeira a imagem antro...

Olifaque, ou uma sociedade que vive entre o medievalismo e a hipermodernidade

Opinião | 28/12/2017 08:08 Há dias, a propósito do lançamento do seu mais recente livro – Olifaque! –João Magueijo afirmava que o povo português mantinha algumas características tipicamente medievais. O físico e investigador justificava esta sua afirmação pelas inegáveis manifestações que persistem na sociedade portuguesa: índices excessivamente elevados de violência doméstica e de género; fraco reconhecimento da importância da educação/formação e níveis de iliteracia elevados; racismo e xenofobia; machismo; manifestações de agressividade e de brutidade mais ou menos recorrente. Magueijo sustenta esta posição não apenas pela observação que faz em Portugal, mas especialmente pelo que diz observar nas comunidades portuguesas, nomeadamente na do Reino Unido (onde reside) e na do Canadá (onde viveu durante dois anos). Passando algum exagero que reconheço ao autor, a verdade é que diariamente os meios de comunicação social nos mostram uma realidade que parece coincidir com aquel...

Raríssimas vezes assistimos a tanta indecência

Opinião | 15/12/2017 08:03 Dezembro é o mês da Festa, da celebração do amor, da alegria, da família. Mas este dezembro de 2017 foi também o mês em que fomos confrontados com algumas das piores indecências que proliferam na sociedade portuguesa. Descobrimos uma igreja - que se diz universal – que a partir de um lar que alojou várias crianças roubadas às mães, dinamizou uma rede internacional de adoções ilegais para os seus membros. Foi o mês em que assistimos ao vivo um jovem atirar um sem-abrigo para dentro de um caixote do lixo, na Amadora. Em que tomámos conhecimento da triste notícia de três jovens que agrediram, gratuitamente, um sem-abrigo, no Funchal. Foi o mês em que descobrimos a história macabra de uma dirigente que roubava a crianças doentes para financiar os seus luxos pessoais. De facto, a história da Raríssimas é, tragicamente, uma história demasiado comum em Portugal. Talvez sintomática do que se passa no país, do nosso miserável fado: a história de co...